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uma breve análise d´O Poço

Goreng, o Dom Quixote passados 400 anos

A analogia direta d´O Poço é obviamente com Dom Quixote, de Cervantes.

Começa pela estrutura da dupla de coadjuvantes – até a semelhança física do ator principal com o cavaleiro, passando pelo seu Sancho Pança pragmático, realista e sério (quantos óbvios ele fala?), compondo a dupla em que o idealista encontra o consciente até demais. 

Goreng (personagem principal) é o lado nobre, idealista e espiritual do ser humano, que como Dom Quixote acreditava piamente no poder dos livros e vive entre a fantasia e realidade. 

Trimagasi, que carrega a faca Ginsu, é o realismo óbvio, a seriedade e supostamente a voz da consciência. 

Por meio da relação e abordagem dos dois, temos a espinha dorsal de Dom Quixote em versão contemporânea. 

Se no século 17, Cervantes escreveu veladamente sobre a megalomania da ambição imperialista espanhola, que bem conhecemos desde a chegada em 1492 de Cristovão Colombo à América, “O Poço” trata das consequências ambiciosas mais globais e atuais. 

Os tópicos são os mesmos em ambas as obras – a distorção política pelo poder, os abismos econômicos, a insensatez religiosa e o caos da sociedade/humanidade em meio a tudo isso.

Alguns termos-chave são usados para de certo modo fracionar em capítulos a narrativa – “comunista”, “solidariedade espontânea” (a caridade), “convencer antes de vencer” e mesmo personagens como a mãe de filho inexistente, que quer ser Marilyn Monroe, na atual cultura da fama a qualquer preço.

O machismo e o preconceito estruturais são caracterizados (o primeiro) na funcionária da administração que decide “aderir à experiência” e entra no roteiro como a voz política da razão, com a intenção de equacionar os problemas amparada por seu conhecimento empírico. O filme escancara como a força da sabedoria feminina ainda necessita do componente “masculino” agressivo na mensagem para se fazer ouvir: “Se não fizerem isso, cago em cada grão de arroz da sua comida” sobrepondo a “solidariedade espontânea”.

Ou o negro que quer redenção para ele e para o universo (do Poço), entrega sua vida ao risco mas mesmo assim não progride somente pela força das ideias.

Mas a principal referência que amarra o filme à história de Cervantes está no componente religioso, que no caso espanhol demoliu incas, maias e astecas na América.

Goreng é o Messias moderno, o salvador que entrega sua vida pela humanidade.

Ao descer ao fundo do poço, no 333º nível (basta multiplicar 333 por 2 pessoas por andar e saberemos que a batalha é travada no inferno), ele tem seu ato final. Morre para que a mensagem viva.

A alusão era à panacota (a nata cozida, que durante o filme é contaminada por um fio de cabelo) intacta. A inocência da criança que comunga do corpo do Messias é a mensagem semeada e próspera. Neste ponto talvez tenha enxergado símbolos demais e vi uma criança vietnamita no inferno da Guerra do Vietnã, mas voltemos ao filme.

Após espancamentos, pauladas, Dom Quixote morre de causas naturais, como Goreng, que se junta a Trimagasi Pança, mas com a mensagem salva para redenção da humanidade.

Ah, há outros elementos como o frio e calor, que sinalizam a ganância, o nome dos personagens – o negro Baharat é batizado a partir de um condimento médio-oriental (a miscigenação), a oriental Imoguiri é um complexo de cemitérios… – ou a alusão à gourmetização da suja e asquerosa lesma como escargot, mas este viraria um livro e não uma resenha.

🙂 

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