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O dia em que agradeci Waldir Peres por me fazer são-paulino

a imagem clássica daquela final de 77

Minha primeira lembrança no futebol foi a final entre São Paulo e Atlético Mineiro em 77, que foi disputada em 78, se não me engano.

Lembro de ter ficado acordado até o que parecia muito tarde naquele jogo. Lembro da felicidade do meu saudoso pai, lembro dos comentários dele sobre o jogo enquanto este rolava e lembro mais fortemente ainda da cobrança de pênaltis, quando Waldir provocou rival por rival, para “desestabilizar e fazê-los errar”. Não tinha idade ainda para saber o que era “desestabilizar”, mas sei que deu certo, pois erraram a maioria (não vou ficar consultando Google para saber quem e quantos). Não tinha idade também para fazer analogia daquilo com bullying (tudo atualmente é ofensivo e vira assédio, bullying, sei lá o quê; na época era coisa que se resolvia na vida real e não na rede social).

E quando lembro de um atleticano batendo um pênalti quase como tiro de meta, para arquibancada, e o Waldir correndo feito louco pra comemorar e meu pai feliz e tudo isso junto me leva quase fisicamente ao sentimento que tive naquele momento. Foi o instante em que virei são-paulino. Foi o instante que virei apaixonado por futebol.

Outra lembrança forte do Waldir foi na Copa de 82, quando ele falhou logo no primeiro jogo, contra a (então) União Soviética. Ganhamos o jogo, mas ele de cabeça baixa depois de levar um frango me marcou, pela ainda fresca memória que tinha dele dos títulos de 77 e 80 e 81 (estes do Paulista).

Quando tive meu primeiro celular que aceitava comandos de voz, daqueles que recomendam que vc fale: “Hello, Moto!” ou algo assim para ativá-lo, batizei-o de Waldir. Falava: “Oi, Waldir” e ele ativava para eu pedir previsão do tempo (acho que eu só pedi previsão do tempo até hoje nessa função de voz).

Há uns dois ou três anos eu estava correndo na rua quando passei por Higienópolis, um sábado cedo, e vi o Waldir Peres de longe caminhando. Gritei “Valeu, Waldir, você me fez são-paulino”, ele escutou aquele imbecil de fone de ouvido correndo na rua, sorriu e fez um gesto de gratid]ao e amizade com um joinha pra cima e a outra mão no peito.

A partir de então, toda vez que corria por ali, torcia para encontra-lo de novo. Ficava olhando as transversais, mas não mais o vi.

Agora nunca mais. Mas mantenho gratidão eterna por esse cara, que talvez nem tivesse a dimensão de que os gestos dos seres humanos por vezes e por menores que pareçam mudam vidas. Valeu de novo, Waldir.

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