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O (definitivo) guia punk de Nova York (Lower East Side)

Acho que foi em 2012 que escrevi este guiazinho.

Pena que ao puxar o histórico do meu blog à época, só vieram os textos, pois estava ilustrado com mapinha e fotos. Enfim, publico novamente para garantir as informações.

Este muro da capa do primeiro disco dos Ramones é uma das paradas do guia

Um passeio pela Nova York do punk (o mapa do tesouro em 9 posts)

Aparentemente todo mundo foi, está indo ou vai pra Nova York. Setecentos mil brasileiros ano passado. Eu também fui algumas vezes. Mas nunca tinha ido com a chance de fazer o passeio que realmente queria, que é o que está nos próximos posts – basicamente a Nova York 77, o berço do punk.

É um giro de, sei lá, uma hora. Poucas quadras do East Village, onde TUDO aconteceu. Todo mundo tocou ou morou ou mora por ali – de Joey e os Ramones a Iggy Pop, abrindo o leque para Madonna e o povo do Led Zeppelin.

Garanto que é um rolê pra quem gosta de rock que está como uma visita ao Metropolitan Museum pra quem gosta de arte. Atalho começa aí abaixo. Depois me conta.

Apartamento de Joey Ramone (1 de 9)

(fachada do prédio onde Joey morou mais de 20 anos)

Ponto de partida da turnê roqueira por Nova York é a residência do cara que mais amou a cidade (junto a Lou Reed e Woody Allen), Joey Ramone, vocalista dos Ramones durante toda a existência da banda, 1974 a 1996.

Foi neste prédio, na 9th Street, que Joey passou as últimas duas décadas de sua vida, até falecer por causa de linfoma em abril de 2001. E foi na porta desse prédio que Joey escorregou no início de 2001, no gelo, quebrou o quadril e foi para o hospital de onde não mais saiu.

Já lutava havia quatro anos contra o câncer. Morreu às 14h40 do dia 15 de Abril. Pouco antes pediu pra mãe e para o irmão colocarem pra tocar o disco All That You Can´t Leave Behind, do U2. Poeticamente, tocava In a Little While, quando morreu: “In a little while/This hurt will hurt no more (Daqui a pouco/Esta dor passará)”.

Foi homenageado com a Joey Ramone Place, ali pertinho, a esquina no centro do turbilhão punk. E escorregou quando voltava da casa de shows Continental, onde fez seu último show e próximo passo dessa tour.

Um passeio pela Nova York do punk – Parte 2 – Continental

(Antiga casa de shows hoje é o tradicional bom e barato pra cervejas e drinks)

Logo ali ao lado do apartamento de Joey Ramone fica o Continental, que foi tremenda casa de shows (pra uns 175 sortudos) até que Iggy Pop teve a feliz ideia de se apresentar lá em 1993, quando já era o IGGY POP. Foi tanta gente para assisti-lo, o tumulto foi tamanho, que baixou Corpo de Bombeiros no local pensando que era situação que demandasse intervenção emergencial. Depois disso, o dono foi obrigado a colocar isolamento acústico, limitar acesso e os shows foram rareando até encerrar apresentações em 2006.

Foi palco do último show de Joey Ramone, solo, em 11 de Dezembro de 2000.

Até o meio dos anos 1970 era uma discoteca – Freda´s Disco, antes de virar Continental.

Nos anos 1990, tocaram lá Guns N´Roses, Green Day, Patti Smith e os próprios Ramones.

Um passeio pela Nova York do punk – Parte 3 – St. Marks Place

(Malcolm McLaren, que montou Sex Pistols, tirou muito da inspiração aqui)

Aí você entra na lendária St. Marks Place e logo no número 4 fica a mais tradicional loja de roupas da área, a Trash and Vaudeville. Couro, vinil, muito preto, acessórios e clientes como Keith Richards, Debbie Harry (Blonde), Joan Jett e Iggy Pop.

A quadra inteira é bacana, com lojas de camisetas, CDs, discos de vinil, etc. No final dela, fica o Gem Spa, o bar que ficou famoso pelo Egg Cream que serve. Ao contrário do que o nome sugere, não tem ovo nem creme, mas uma mistura de água gaseificada, leite bem gelado e xarope de chocolate, que os punks (principalmente os Ramones) adoravam. Johnny Ramone tornou famosa a marca de achocolatado Yoo-hoo – usava sempre camiseta com o logo.

E se você reconhecer a fachada do bar e tentar lembrar onde já a viu antes, vire a capa do primeiro disco do New York Dolls – a foto da contracapa foi tirada ali.

Um passeio pela Nova York do punk – Parte 4 – Fillmore East

(Quem vê o banco não imagina sobre quanta história e decibéis ele foi construído)

Dobre à direita no Gem Spa e siga dois quarteirões. Ali fica o Emigrant Savings Bank, espaço que no final dos anos 1960/começo dos 1970 abrigava a lendária casa de shows Fillmore East.

A casa inaugurou com Janis Joplin, em 68, e virou uma das preferidas de Doors, Led Zeppelin, Jimi Hendrix, The Who, etc. O último estreou a ópera rock Tommy no Fillmore. E sua coleção de discos deve ter algum ao vivo gravado ali, como Allman Brothers at the Fillmore, Frank Zappa and the Mothers of Invention at the Fillmore, Neil Young Live at Fillmore. Fechou em 1971.

O Emigrant Savings Bank faz justiça à história do local e deve ser o único banco do mundo que tem pôsteres sobre os caixas de shows realizados por lá.

Em frente ao banco, há dois postes enfeitados com mosaíco de pedras e pedaços do antigo local e a peça principal é um pedaço da guitarra de Pete Towshend, do The Who, que ele quebrou durante performance ali.

Um passeio pela Nova York do punk – Parte 5 – Physical Graffiti Building

(É besta, mas é o tipo de foto que vale a pena ser besta e tirar)

Volte para a St. Marks e no meio da quadra, do lado direito do sentido que você segue, está uma das fachadas mais conhecidas do mundo, da capa do disco Physical Graffiti, do Led Zeppelin.

Pra marcar de vez o local, abriram uma casa de chás embaixo chamada Physical Graffitea (sacou?). O curioso é que as latas de lixo em frente devem ser as mesmas.

Mais curioso ainda é você perceber que o prédio tem cinco andares e na capa do disco só tem quatro. Diz a lenda, que no quarto andar morava o fornecedor de substâncias ilícitas favorito do guitarrista Jimmy Page, e que por conta disso, o andar foi suprimido da versão final da capa.

Um passeio pela Nova York do punk – Parte 6 – Mural do Joe Strummer

(Na certidão de nascimento do punk, um dos pais creditados é o cara aí acima)

Vire na Avenida A e desça. Na esquina seguinte encontrará o mural Joe Strummer, ex-guitarrista do The Clash, que faleceu em 2002. O muro onde fica o grafite pertence ao bar Niagara. Lá, em 2003, foi gravado o clipe póstumo de Joe Strummer da música Redemption Song, cover de Bob Marley. O clipe foi justamente em cima do grafite. Dá uma olhada:

Um passeio pela Nova York do punk – Parte 7 – Casas de Charlie Parker e Iggy Pop

(Fachada do prédio onde morava Charlie Parker)

(Fachada do prédio vizinho, onde Iggy Pop morou)

O bar de Joe Strummer dá de frente para um simpático parque. Cruze-o na diagonal e você chegará ao prédio de número 151 morou um dos maiores talentos do jazz em todos os tempos, o saxofonista Charlie Parker, entre 1950 e 54. Mas o cara era viciado em tudo o que se pode imaginar – de jogos a álcool e drogas. Não era raro ele acordar, vender o saxofone para comprar drogas e o dono do bar onde se apresentaria à noite ter que comprar o instrumento de volta para que o show fosse realizado.

Ganhou uma bela cine-biografia, dirigida por Clint Eastwood, “Bird” (seu apelido). Entre as ruas 7ª e 10ª, a Avenue B foi rebatizada Charlie Parker Place.

Aparentemente Iggy Pop pirou no músico e nos anos 1990 comprou um apartamento no prédio vizinho, 143, convocou um trio de jazz nova-iorquino (Modeski, Martin e Wood) e gravou o álbum Avenue B.

(Mosaíco na frente do antigo Fillmore)

Um passeio pela Nova York do punk – Parte 8 – Casa da Madonna e Albert Garden’s

(Quarto andar desse prédio, onde tudo começou a acontecer para Madonna)

Em 1978, Madonna chegou a Nova York com U$ 35 no bolso, um casaco e uma mala e disse pro taxista: “Me largue no meio de tudo”. Ele a deixou na Times Square. Mas ela encontrou abrigo neste prédio da região, que era o centro punk à ocasião e das drogas – logo, com aluguel mais barato.

Trabalhou como garçonete, dançarina, formou um grupo onde tocava bateria e cantava e o resto é história.

Duas ruas pra baixo está o muro imortalizado na capa do primeiro disco dos Ramones. A história é que eles estavam com o fotógrafo na 2ª Avenida e resolveram procurar um lugar para baterem as fotos. Dobraram a primeira rua e meia-quadra depois o baixista Dee Dee disse que estava cansado de procurar e que fizessem logo ali. E assim foi.

No dia 30/11/2003 a esquina da 2nd com a Bowery, ali ao lado, foi batizada Joey Ramone Place, a apenas uma quadra do CBGBs e do apartamento que Joey dividiu com Dee Dee e o artista Arturo Vega.

(Spot escolhido para a foto da capa do primeiro disco dos Ramones)

(A tal da capa dos Ramones – Johnny, Marky, Joey e Dee Dee (da esq. para dir.))

(E a esquina que Joey tanto amou foi batizada em sua homenagem)

Um passeio pela Nova York do punk – Parte 9 – CBGB OMFUG

(CBGB virou loja de grife)

CBGB OMFUG é sigla pra Country BlueGrass Blues and Other Music For Uplifiting Gormandizers, e o símbolo do punk nova-iorquino. A casa de shows abriu em 1973, e a proposta era só de apresentações de bandas com material próprio. Como ficava no centro punk que nascia, em 1974 o Television começou uma série de shows por lá, e meses depois foi palco da primeira apresentação dos Ramones, dia 16 de agosto.

Nos 32 anos seguintes, até que fechasse em Outubro de 2006, TODO mundo tocou lá.

E na última noite Patty Smith teve a companhia de Flea (Red Hot Chilli Peppers), Richard Lloyd (Television) para relembrar as bandas que passaram por lá, e ao final da noite lembrou que o “CBGB estava acabando aos 33 anos, mesma idade de Jesus” e leu lista de grupos que se apresentaram no espaço, como AC/DC, Blondie, Dead Boys, PJ Harvey, Living Colour, Rancid, Bruce Springsteen e por aí segue.

O dono e fundador do CBGB, Hilly Kristal, morreu um ano depois, em agosto de 2007.

Hoje, o local abriga uma loja chique, de John Varvatos. Decoração deixou ainda partes do clube original.

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